Ação Cultura Digital: Programa Cultura Viva

Publicado por Gabriela Agustini dia 3 de novembro de 2009

culturadigitalOs Pontos de Cultura nascem a partir de convênios entre entidades da sociedade civil organizada, selecionadas por editais públicos ou por prefeituras, e o Ministério da Cultura. Compõem o Programa Nacional de Cultura Educação e Cidadania – Cultura Viva, criado por meio da Portaria nº 156, de 06 de julho de 2004, por meio do qual as entidades civis recebem recursos orçamentários no valor de até 185 mil reais, do Ministério da Cultura, em parcelas semestrais a serem investidas em um prazo de dois anos e meio na manutenção do Ponto.

Segundo o projeto Mapas da Rede, coordenado pelo Instituto de Pesquisa e Projetos Sociais e Tecnológicos (IPSO), há 824 Pontos de Cultura conveniados em editais do Governo Federal distribuídos em todo o país. De 2005 a 2007 foram realizados encontros e oficinas para promover a apropriação das TICs nos Pontos de Cultura, na chamada Ação Cultura Digital. Por meio da Ação, em 2006, cem Pontos receberam kits multimídia com computadores que funcionam como
servidores e ilha de edição de imagem, áudio e vídeo; câmera fotográfica digital; filmadora; gravador de som digital; microfones e fones de ouvido. Nos anos seguintes, cada Ponto de Cultura recebeu 20 mil reais para a compra de equipamentos.

No período estudado, os convênios estabelecidos pela Ação Cultura Digital eram federais, desde então, houve uma mudança de direcionamento, e no contexto atual há a possibilidade de convênios estaduais.

Os espaços de formação do Cultura Digital

Encontros de Conhecimentos Livres e oficinas foram os espaços presenciais propostos aos participantes dos Pontos de Cultura para a apropriação de tecnologias.
primeiros eram processos de imersão com oficinas continuadas que ocorriam durante um final de semana, feriado ou mesmo por semanas, quando um grupo de oficineiros procurava difundir as tecnologias da informação e comunicação, promovendo uma vivência em cultura digital. Também foram realizados fóruns e chats virtuais para assistência remota, em ambientes virtuais como o Conversê – criado pela Ação Cultura Digital -, bem como publicizados tutoriais, manuais e almanaques no Estúdio Livre – ambiente colaborativo de produção, distribuição e desenvolvimento de mídias livres.

Cerca de 150 pessoas se reuniam nos Encontros de Conhecimentos Livres para compartilhar conhecimentos sobre tecnologias de hardwares e softwares, e criação de
linguagens e produtos multimídia. Eram produzidos pelos oficineiros e coordenadores da Ação em parceria com lideranças dos Pontos de Cultura e dos governos locais, representações regionais do Ministério da Cultura e membros dos projetos Casa Brasil e Gesac. Os encontros podiam durar dias ou semanas. “O importante era a imersão e a vivência”, ressalta Cristiano Scabello, oficineiro da Ação Cultura Digital entre 2005 e 2007.

O Primeiro Encontro de Conhecimentos Livres dos Pontos de Cultura aconteceu em Teresina, no Piaui, com duração de dez dias, de 25 de julho a 05 de agosto de 2005. Durante o Encontro foram realizadas oficinas e rodas de conversa propostas e conduzidas tanto por oficineiros da Ação Cultura Digital quanto por  epresentantes dos Pontos de Cultura. O relato publicado no Wiki da Ação Cultura Digital registra a variedade de temas trabalhados: “O programa deste encontro contou com oficinas como “Introdução ao Hardware”, “Tela Preta e Redes”, “Processo de MetaReciclagem”, “Pintura de Gabinetes”, “Áudio I e II”, “Xilogravura”, “Fotografia e Produção Gráfica em Software Livre”, “Vídeo em Software Livre”, “Usando (Melhor) o Seu Telecentro”, “Produção de Brinquedos com Material Reciclado”, “Oficina de Encadernação”, “Capoeira Angola”, “Teatro de Rua”, “Postura de Palco”, “Percussão”, “DJ”, “Uso de Aerógrafo”, “Prestação de Contas”, “Montando um Portal com Tiki Wiki”, “Cineclubismo”, “Oficinas Especiais para Instrutores do MHHOB” e “Horticultura”, além de conversas abertas sobre “Comunicação Livre”, “Candomblé”, “Software Livre”, “Rádio Livre”, “Hip Hop”, “Questões de Gênero”, “Políticas do MinC de Incentivo ao Audiovisual”, “Cultura Digital Direto da Espanha Via Webstreaming” e “Direitos Humanos na Comunicação com Intervozes”.

Neste Encontro, cerca de 160 computadores foram reciclados e quatro telecentros, um centro de metareciclagem e uma cooperativa foram criados. Foram capturadas e gravadas 15 faixas de áudio, reunidas num CD, cinco vídeos de um minuto, para serem inscritos no Festival do Minuto, e uma revista de experimentação gráfica. Além disso, foram registradas mais de 500 fotos e cerca de 100 horas de vídeo.

“O primeiro Encontro foi mágico. Lá nasceu a essência do que tentamos replicar depois, mas nunca foi igual”, lamenta Léo Germani, oficineiro e coordenador das oficinas da Ação Cultura Digital em 2006. “O espírito era de criar uma vivência dos principais valores e conceitos que queríamos passar nas oficinas: autonomia, protagonismo, trabalho em grupo, em rede, construção coletiva do conhecimento, uso de software livre. Mais do que falar, fizemos acontecer.” Germani descreve o formato aberto como o aprendizado aconteceu: “Chegou o caminhão com os computadores que eles conseguiram como doação do Banco do Brasil. Todo mundo começou a ajudar, a oficina de metareciclagem foi se organizando: teclado pra cá, mouse pra cá… o pessoal do MST mostrou como fazer uma horta, teve oficina de maracatu. Rolou muita troca, muita coisa aconteceu por iniciativa das pessoas. Não dá pra replicar uma experiência espontânea, tentar sistematizar e compartimentar.”

Em 2005, foram realizados 14 Encontros de Conhecimentos Livres. Conforme descrito acima, as oficinas não eram divididas em “aulas de vídeo” ou “aulas de áudio”, mas os grupos se articulavam para superar um desafio. “O objetivo era sensibilizar, mostrar o que era possível fazer”, sintetiza Léo Germani. “Para necessidades mais técnicas esse formato não funcionava”, afirma. Adriana Veloso, a Drica, articuladora da Ação Cultura Digital de 2005 a 2007, concorda com Germani. “É muito comum ver a luz estourada nos vídeos produzidos durante os Encontros, áudio estourado… porque não dava tempo.”

A partir de 2006, além dos Encontros de Conhecimento Livres foram realizadas oficinas locais, reunindo de dois a quatro Pontos de Cultura, e oficinas regionais, que atendiam um número maior de Pontos reunidos. Com cerca de 20 pessoas e um oficineiro, esses cursos focavam as necessidades específicas de cada Ponto, desde a implementação dos kits multimídia até o aprofundamento necessário em algum software livre. Em 2006, foram realizados 13 Encontros de Conhecimento Livre e 41 oficinas.

Havia pressão por parte do Ministério para que a Ação Cultura Digital apresentasse resultados numéricos. Mas como falar em hora-aula nesta proposta aberta? Como marcar a continuidade da oficina em uma manhã se alguns dos participantes passaram a madrugada editando um vídeo? “Rolava conflito com quem esperava aula na hora certa, com apostila. Tivemos ótimas experiências, mas nunca 100%. Muitas vezes as pessoas esperavam um curso formal e se frustravam. Claro que algumas se encantavam, mas outras telefonavam pro Ministério reclamando”, relata Germani.

Banto, que participou da Ação Cultura Digital em 2005, afirma que um dos problemas das ações de apropriação é com a mensuração de resultados. “Você planta pra um dia brotar, você não colhe quando quer. No ano passado, 2008, recebi um e-mail de uma professora que tinha participado do Encontro do Piaui, em 2005, falando sobre a oficina. Como coloco no relatório que ela demorou três anos? A idéia de capacitar envolve um tempo, digerir aquilo.”

As oficinas do Ação Cultura Digital sempre tinham o objetivo de resultar em um produto. “Em quatro horas botava um programa no ar. Fazia matéria, cenário, roteiro, câmeras, entra VT, volta. Era uma loucura – e muito legal”, comenta Léo Germani. Para Drica Veloso, é importante que a pessoa sempre saia da oficina com um produto, com algo que tenha conseguido concretizar, no sentido de valorizar o que aprendeu e fortalecer sua auto-estima.

De acordo com as necessidades dos Pontos eram realizadas oficinas de:
1. introdução aos usos da Internet, denominada de “Se joga na rede”;
2. cultura livre;
3. articulação e produção cultural;
4. metareciclagem;
5. produção de áudio;
6. produção de vídeo;
7. produção gráfica; e
8. novos modelos de direito autoral (Fossá, 2006).

O perfil dos que participavam dos Encontros e Oficinas sempre foi muito heterogêneo. Havia pessoas de todas as idades, com diferentes níveis de aproximação com computadores e outros aparelhos digitais. O que cada um esperava da Ação Cultura Digital também era muito distinto. “Cada um trazia uma expectativa pessoal, queria sair com uma questão resolvida. Mas muitas vezes voltava com mais perguntas que respostas.”, afirma Germani. A não realização das expectativas dos participantes das oficinas, de acordo com Léo Germani, um dos formuladores do projeto, seria um ponto negativo. Como solução, aponta a necessidade de clareza por parte dos oficineiros e facilitadores dos objetivos a serem alcançados em cada oficina, bem como de sua divulgação para que os participantes saibam o que irá ocorrer, sem gerar falsas expectativas.

Proposta que coaduna com a análise de Léa Fagundes, uma das maiores referências brasileiras da área de educação e novas tecnologias, quando diz que “Cursos sem início, sem meio nem fim” seriam os espaços ideais de aprendizagem, com a possibilidade das atividades centrais serem oficinas, sendo que estas “precisam organizar atividades práticas com fundamentos expressos com clareza”.

Os mediadores do Cultura Digital

De 2005 a 2007, os oficineiros e coordenadores/articuladores da Ação Cultura Digital foram contratados pelo Instituto de Pesquisa em Tecnologia e Inovação (IPTI) como consultores do Ministério da Cultura. Os perfis e salários variavam sem obedecer a critérios objetivos. Drica Veloso comenta que enquanto outros coordenadores/ articuladores tinham, em 2005, um salário de 2.500 reais, ela recebia mil reais “porque era mulher e tinha acabado de ter bebê”. A questão do gênero, aliás, é bastante pontuada por Veloso que ratifica a disparidade entre o número de homens e mulheres contratados para atuar no projeto.

Não foram abertos editais, concursos ou chamadas públicas para a contração dos que concretizaram a Ação Cultura Digital. Ela emergiu de um grupo de ativistas de diferentes grupos da sociedade civil, como o

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