Ação Cultura Digital: avaliação

Publicado por Gabriela Agustini dia 3 de novembro de 2009

A conclusão a que a pesquisa chega é que a a experimentação e a inovação são, quase de maneira unânime, as grandes contribuições da Ação Cultura Digital no que diz respeito ao fomento e à apropriação de tecnologias digitais. Foram experimentados modelos e métodos de convidar produtores culturais, muitas vezes avessos ao uso de tecnologias, a incorporar as ferramentas digitais em seu cotidiano. As recomendações de especialistas de não trabalhar a ferramenta pela ferramenta, mas de formar de acordo com as necessidades de indivíduos e grupos estiveram presentes no Projeto.

“A inclusão digital pela Cultura é a grande sacada do Projeto”, avalia Drica Veloso. Felipe Fonseca brinca que as oficinas tiveram mais erros que acertos e afirma que o maior resultado da Ação Cultura Digital foi abrir espaço para tratar questões ainda desconhecidas. “E o papel do Gil nisso foi fundamental. Pudemos ampliar o discurso pra fora da classe média paulistana, chegando mais às bases. O maior valor foi simbólico. Foi criado um espaço de invenção no poder público que não existia.” Léo Germani enumera as questões formuladas na Ação e difundidas pelo então Ministro Gilberto Gil: “Direitos autorais, uso de software livre, conhecimento livre, licenças abertas. Isso abriu portas e discussões, pipocou pra muitas ações, influenciou tanta coisa… nem temos a dimensão”.

Os principais problemas do Programa, apontados pelos entrevistados, podem ser explicados por uma reflexão de Drica Veloso: “O Cultura Digital nunca se propôs a ser sério. Estava e não estava dentro do MinC. Já cheguei a cidade do interior de Minas e a televisão lá estava me esperando porque tinha alguém do Ministério da Cultura… imagina! A equipe nunca foi preparada. E a politicagem do ‘vamo que vamo’ foi muito prejudicial. Precisava de mais calma, mais preparo, mais tato. Muita coisa não deu certo por isso.”

Todos os seis entrevistados que atuaram no Programa do Ministério da Cultura apontam a falta de condições de trabalho, de estabilidade e continuidade das ações. Os salários pagos aos coordenadores e oficineiros pelo IPTI (Instituto de Pesquisa em Tecnologia e Inovação), de 2005 à metade de 2007, não obedecia a critérios claros para a definição de valores; era, muitas vezes, liberado com atrasos e não foi uma constante durante todo o trabalho nos Pontos de Cultura. “Às vezes o salário atrasava 15 dias, e as pessoas ficavam esse tempo em casa. Outras, todo mundo sem dinheiro, gastando celular, adiantando a comida pra receber dois meses depois. Era muita precariedade, sempre uma briga”, relata Felipe Fonseca.

A falta de equipamentos é outro ponto marcante no que chamam de falta de condições de trabalho. Até meados de 2006, computadores, câmeras, filmadoras e tudo o que utilizavam nas oficinas era dos próprios oficineiros. O desgaste e a manutenção eram ônus dos que trabalhavam na Ação Cultura Digital. Tais problemas não permitiam um trabalho continuado. “O processo começava em um lugar e depois a gente não tinha dinheiro para ficar lá e continuar. Não era possível um trabalho de longo prazo. Pela lógica do software livre, pra fazer as coisas é necessário dedicação e tempo, e no Cultura Digital tudo era muito imediatista”, afirma o oficineiro Bruno Tarin.

A falta de continuidade também era causada pelo tempo dedicado ao trabalho. Os imersivos Encontros de Conhecimentos Livres, que podiam durar semanas muitas vezes aconteciam um em seguida ao outro. “Todo mundo ficava exausto. Trabalhava longe de casa por três semanas e em outra, de folga, tinha que fazer relatório das três anteriores”, conta Drica Veloso. ”O pessoal perdia o tesão, a vontade. Não tinha espaço pro novo, pro diferente – e ficou chato. Chegou uma hora que todo o material produzido nas oficinas falava da própria oficina, uma coisa ‘umbiguista’ mesmo. A criatividade era tolhida porque se repetia um modelo industrial.”

Em seu relato, Léo Germani reafirma como o cansaço comprometia a qualidade do trabalho: “Em 2006 a equipe de oficina estafou. A gente viajou muito e era muito
cansativo emocionalmente, fisicamente. Chegou a um ponto que você não tinha mais pique de jantar com as pessoas no fim do dia, tomar uma cerveja; queria ficar sozinho no quarto e se isolar com os oficineiros que já eram seus amigos. Esse isolamento, pra quem participa do Encontro, é muito ruim. O bom é quando mistura. Mas se a equipe está muito cansada quebra o clima da vivência. Fala, vai embora e não tem troca.”

Muitas vezes, a autonomia com que a equipe trabalhava se transformava em falta de direção e objetivos comuns. “Cada um tinha um entendimento diferente, um

comprometimento diferente. Não tinha gestão clara, não tinha critério de contratação. Algumas pessoas achavam e diziam que não trabalhavam pro MinC porque existia brecha pra isso”, afirma Germani. Pixel, que deu oficinas na Ação Cultura Digital, concorda ao reafirmar que as pessoas iam em diferentes direções, cada uma com um objetivo próprio. “O Projeto não tinha um conceito claro, ele agregava um grupo ligado à generosidade intelectual, mas nem sempre com os mesmos objetivos.”

Veloso afirma que o profissionalismo não era um valor no grupo, mas sim que as pessoas davam muita importância ao afeto. “No Gesac, por exemplo, se alguém não
trabalhava era mandado embora. Aqui não.” Para Germani, a gestão de pessoas acontecia de maneira equivocada: “Trocar alguém não era simples e muitas vezes isso atrapalhava a unidade. Eram muitos ativismos que muitas vezes não iam de encontro ao propósito do Programa – e isso foi ao extremo. Cada um fazia o que queria”.

Os problemas de gestão também apareceram na compra e na entrega dos primeiros kits multimídia. De acordo com o relato de Banto: “O Ministério esqueceu que era necessário dinheiro pra levar os kits de onde ele comprou até os Pontos. Aí fizeram a gambiarra de entregar na primeira Teia (encontro dos Pontos de Cultura). Quando entregaram para as pessoas muita gente se espantou: ‘Como assim pode levar? Como vou levar?’ Tinha uma coisa de querer reinventar a roda, de não aproveitar experiências.”

O crescimento da equipe, de 2005 para 2006, aconteceu de forma desordenada e não planejada. Para levar oficinas locais e continuadas aos Pontos de Cultura, a equipe cresceu de menos de 20 para mais de 100 pessoas. Segundo Léo Germani: “O crescimento foi mal gerenciado e pouco sustentado. Ainda era praticamente uma idéia abstrata quando já foi escalado. Sem testar. As pessoas foram indicadas e não necessariamente tinham afinidades. Foi criada uma equipe gigante da noite para o dia sem estrutura adequada pra administrar.”

Os oficineiros ressaltaram a falta de planejamento para muitos Encontros e Oficinas. “Se você convida, e a pessoa sai de casa, não pode ter rato no quarto, tem que
ter comida, cobertor. Precisa do mínimo”, ressalta Germani. “E os objetivos precisam estar muito claros prá todo mundo, prá evitar frustração.” Bruno Tarin concorda que é importante as pessoas terem clareza do que é a oficina e o que será trabalhado. “Muita gente queria um diploma”, afirma.

Outro aspecto que gerou questões controversas nas oficinas do Programa foi em relação ao uso de software livre. De acordo com Léo Germani, muitas vezes devido a maneira como era imposto causou um impacto negativo. “Algumas pessoas já trabalhavam com softwares proprietários de edição de vídeo, por exemplo, e falar pro cara que não pode e exigir que mude não funciona. Você precisa entender o papel da oficina num âmbito maior. A migração é um processo complexo e precisa fazer sentido. E por mais que se fale muito no uso de software livre, ele nunca foi bancado como opção, nunca se investiu em desenvolvimento. Se estiver funcionando fica mais fácil a pessoa querer usar.”

A Ação Cultura Digital do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura desenvolveu oficinas de 2005 a 2007. O projeto envolveu os principais movimentos  ativistas da internet brasileira e motivou a formação de outros projetos que buscavam o uso emancipador das tecnologias da informação e da comunicação.

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