Da capacitação à apropriação das tecnologias digitais

Publicado por Gabriela Agustini dia 30 de outubro de 2009

oficina_metareciclagem_cuiaba_2007Nenhum termo é unânime para tratar ações de ensino-aprendizagem. Capacitação, educação, formação, treinamento, reciclagem, letramento, alfabetização, fluência, apropriação são exemplos de palavras utilizadas para o que Carlos Rodrigues Brandão chama de “práticas pedagógicas”, que existem muito antes dos locais especializados para o ensino.

O antropólogo afirma que durante toda a história social da humanidade há situações em que alguns fazem e ensinam e outros observam, repetem e aprendem; seja no trabalho,em rituais, celebrações coletivas ou quaisquer acontecimentos cotidianos (BRANDÃO, 2006,p. 23). E a escolha de um termo para tratar as práticas pedagógicas não é só uma questão semântica. Anna Helena Altenfelder, especialista em Psicologia da Educação, afirma que “a escolha dos termos muitas vezes revela as posturas e concepções que orientam as ações de formação” (ALTENFELDER, 2005, s. p.).

Sobre o termo capacitação, a autora pondera: “a adoção da concepção de capacitação como convencimento e persuasão se mostra inadequada (…) uma vez que não podem e não devem ser persuadidos ou convencidos sobre idéias, mas sim conhecê-las, analisá-las, criticá-las ou até mesmo aceitá-las.” (ALTENFELDER, 2005, s. p.).

A maioria dos especialistas e ativistas ouvidos na pesquisa encomendada pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) à FLi Multimídia não utiliza o termo capacitação para tratar das “práticas pedagógicas” do digital. Mônica Gardelli Franco, doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e gerente educacional do Núcleo Cultura e Educação da Fundação Padre Anchieta, não utiliza o termo capacitação por opção: “Parece que a pessoa não terá autonomia para usar o que é apreendido. Prefiro o termo apropriação porque traz em si o sentido de que a ferramenta será usada a seu favor, a partir de suas necessidades. O sentido de apropriar-se de ferramentas tecnológicas é ter acesso ao conhecimento e às informações disponíveis e também contribuir numa via de mão dupla: é alimentar e ser alimentado”.

Além de apropriação, Mônica utiliza os termos alfabetização, letramento, ou qualquer outro que permita, segundo ela, a idéia de apropriação. Para a professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Léa da Cruz Fagundes, a aquisição de habilidades e desenvolvimento de competências na apropriação dos recursos das tecnologias denomina-se fluência digital: “Essas competências podem ser adquiridas em diferentes níveis: a) níveis de usuário- iniciante, médio, avançado; b) níveis de desenvolvedores – de recursos para aplicações e serviços; c) níveis de pesquisa e inovação, dos próprios recursos tecnológicos, de geração de novas estratégias, de mudanças/ saltos culturais e aberturas para a complexidade e a transdisciplinaridade, de ampliação da consciência individual e coletiva.”

O termo capacitação também pode ser preconceituosamente associado à incapacidade, e – de acordo com a perspectiva de uma educação transformadora -, o ser humano, o estudante, o aprendiz não somente é hábil a aprender como também mestre nos seus conhecimentos, sendo incentivado a contribuir no ensino dos demais colegas e professores.

A alfabetização digital, por sua vez, é compreendida por alguns teóricos como o primeiro contato com as tecnologias, em conhecer os códigos e começar a utilizá-los o que levaria – com o uso – a um letramento digital. Porém, como bem lembra Moacir Gadotti (2005), para Paulo Freire o termo alfabetização também inclui a prática discursiva e representa um instrumento para a transformação social. Nessa perspectiva, considerar letramento mais abrangente do que alfabetização representa negar a tradição freiriana.

Já a denominação “inclusão digital”, utilizada por alguns pesquisadores e agentes sociais, conforme melhor explicado no próximo tópico, remete a uma segmentação, como se existisse uma margem delimitada a ser ultrapassada. Na sociedade contemporânea em que a relação tecnologia-cultura-produção é totalmente dialógica (CASTELLS, 1999) tal noção não parece ser a mais adequada.

Outro termo utilizado pelos entrevistados como uma opção à inclusão digital é democratização do acesso. Ele refere-se também ao uso pleno da rede, à criação de mecanismos para que seja utilizada sem as amarras ou limitações das tecnologias existentes. Porém, por mais abrangente que democratização seja, remete em primeira instância – junto com inclusão -, ao acesso, ao fato de haver computadores, ferramentas, redes disponíveis.

O sentido que se busca neste trabalho para processos pedagógicos do digital extrapola a inclusão digital ou a democratização do acesso. Ele se aproxima da inclusão social, ou seja, de ações que levem os usuários da internet a transformar suas relações sociais, políticas, econômicas pelo potencial criativo que as ferramentas digitais propiciam.

Felipe Fonseca, pesquisador e articulador de projetos relacionados à produção colaborativa, mídia independente, software livre e apropriação crítica de tecnologia, que coordenou, entre 2005 e 2006, a Ação Cultura Digital do Ministério da Cultura, relata que o termo capacitação nunca foi utilizado para se referir ao que faziam.

Desde o começo pensamos em apropriação de tecnologias para Pontos de Cultura: as pessoas começaram a usar a rede para mobilização, para articular seus projetos, e não se adequar a um projeto ideal; não aprender X, Y, Z para ter um certificado e poder procurar emprego. Tinham que aprender a aprender sozinhas, o que já faziam fora da rede, o que está presente no cotidiano do brasileiro: mutirão, não passar fome pela relação com o vizinho. Aprofundar um pouco a questão da apropriação cotidiana, da gambiarra. Tratar isso, que muitas vezes está relacionado ao atraso social do Brasil, e recontextualizar.

De acordo com os formuladores das oficinas do Programa Cultura Viva, a ideia proposta era a de “reapropriação”, questionando o que significa “propriedade”, “apropriarse”, ressaltando a possibilidade criativa de uso.

Leonardo Germani, oficineiro da Ação Cultura Digital, que coordenou as oficinas da Ação entre 2005 e 2006, diz que não utilizavam o termo capacitação para evitar qualquer associação a cursos meramente técnicos. “Tínhamos a idéia de conhecimento livre. Trabalhávamos com uma mudança ética mais profunda, não de aprender uma nova ferramenta. Queríamos que as pessoas aprendessem a aprender e chamávamos isso de oficina, de encontro.”

No Gesac, segundo a implementadora Renata Lourenço, o termo capacitar também não era utilizado. “Falávamos em facilitadora de tecnologias de comunicação, uma ação que visava mediar a máquina, a conexão e as pessoas que se beneficiam dos projetos. A ideia era fazer com que a tecnologia seja usada para o coletivo, para agregar valor social ao equipamento”.

Para o professor Marcelo Buzato, do Departamento de Linguística Aplicada do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o termo capacitar pode ser compreendido como o primeiro passo da apropriação. Mas afirma que só a capacitação, mesmo quando bem feita, não basta. “É necessário conhecer  fundamentos e ter tempo e suporte para entender como a máquina funciona. Aí você passa a pensar e a entender o que aquilo te permite fazer. Mas isso não garante que eu consiga fazer, na hora em que eu precisar, só porque conheço o funcionamento. Hoje, as escolas públicas, por exemplo, têm professores capacitados em tecnologia. Mas isso é muito vago, saber lidar com o computador… é necessário ter noção da implicação social da tecnologia e de como ela afeta a vida dos alunos, do trabalhador, como se posiciona.”

Lilian Starobinas, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo e professora do Ensino Médio em uma escola da rede particular da cidade, trabalha com as ideias de domínio e apropriação. “Estamos falando de uma prática, composta de diversas ações. É importante diferenciar o domínio da apropriação das ferramentas. Sou capaz de verificar se alguém domina o uso do computador se sabe ligar, conhece o mouse, abre o navegador, tem ideia de programas básicos. Posso chegar à conclusão de que domina o uso do aparato, e não obrigatoriamente isso significa apropriação. Temos tentando caracterizar apropriação como estado diferenciado e específico. Não podemos cair no discurso massificado de dar capacitação pro Pacote Office, pro mercado de trabalho. Não precisamos de diplominha. Temos trabalhado com a clareza de que formação, conhecimento, aprendizagem, apropriação são processos situados. É necessário dar resposta à necessidade de um momento. Se sou usuária ocasional, vou esquecer como usar um programa especificamente. Precisamos facilitar que as pessoas encontrem seus talentos e desejos de desenvolvimento para que utilizem as ferramentas para o que quiserem.”

Estas pontuações apresentam, em sua essência, a necessidade de práticas pedagógicas que permitam a apropriação de ferramentas digitais no cotidiano dos aprendizes, para a satisfação de suas necessidades. Essa noção de apropriação é coerente com o conceito formulado pelo historiador Roger Chartier “A apropriação, tal qual nós a entendemos, visa a uma história social dos usos e das interpretações, remetidas às suas determinações fundamentais e inscritas nas práticas específicas que as constroem” (CHARTIER, 2003, p. 152). Assim, em busca de um conceito, que represente as reflexões de quem estuda e pratica a pedagogia do digital, utiliza-se a definição de Débora Duran, publicada em sua tese doutoral: “apropriar-se efetivamente da linguagem digital é mais do que simplesmente ’saber usar’, isto é, não significa apenas a realização de ações aleatórias ou de operações obrigatórias, mas a incorporação de recursos digitais para a realização de projetos individuais e/ou coletivos” (DURAN, 2008, p. 57-58).

Portanto, conforme o processo da elaboração deste trabalho aponta, em concordância com a ampla produção brasileira sobre educação digital e cibercultura, propõe-se trabalhar com a denominação “apropriação tecnológica” ou “apropriação de tecnologias digitais” para processos pedagógicos que visem à emancipação social e a valorização do potencial criativo a partir do uso das ferramentas e recursos digitais.

Imagem: Oficina de MetaReciclagem do Programa Gesac em Cuiabá (2007). Disponível em: http://www.idbrasil.gov.br/imagens/oficina_metareciclagem_cuiaba_2007.jpg/view

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